18 de março de 2011

Sombras

Imagem do google

Sombras...
Ao meu redor
Há sombras...
Sombras que rastejam
Tentam me aprisionar
Querem a minha luz
Ocultam o seu próprio ser
Passeiam feitos cadáveres
Zombam pela vida
Diabulam no nada
Sombras...
Ao meu redor
Há sombras...
Vidas sem cor
Tentam abafar meu brilho
Desejam o meu Sol
Espelham nuvens escuras
Perdidos no vazio
Sombras...

de Sónia Caires

7 de março de 2011

Noite



Imagem do google

Noite...
Na luz da solidão
Uma ferida que dói
Um choro escondido
Uma fenda sem fim
Uma voz ausente
Palavras perdidas
Momento de tristeza
Um poema distante
Uma sombra esquecida
Uma dor apertada
Uma estrada deserta
Um mundo cadente
Um olhar infinito
Noite...

de Sónia Caires

27 de fevereiro de 2011

Cântico Negro


Imagem de google

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.


Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

de José Régio

23 de fevereiro de 2011

À Morte


Imagem do google

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E, como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte, dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me às asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!


de Florbela Espanca

18 de fevereiro de 2011

Fata-me


Imagem do google

Falta-me
Soltar ao sabor do vento
Seguindo o meu caminho
Dizendo baixinho...
Tudo o que eu sinto
Falta-me
Murmurar palavras não ditas
Emoções sentidas...
Embalando com carinho o meu coração
Falta-me
Gritar...gritar...
Sons do meu silêncio
Solidão dos meus sonhos
Refúgio do meu olhar...

de Sónia Caires
( Imagem Google )